A poesia de Adélia Prado

“Belo Horizonte é uma cidade que reúne mais de mil pessoas para falar de livro”, disse Afonso Borges, idealizador do Sempre Um Papo, ao abrir a noite que faz parte das comemorações dos 45 anos do Grande Teatro do Palácio das Artes e dos 30 anos do Sempre Um Papo, projeto que promove o encontro entre leitores e escritores. Para quem é de Belo Horizonte, e tem praticamente a mesma idade do projeto, dá gosto ver o teatro lotado para ouvir um espetáculo feito por palavras. A poeta mineira Adélia Prado apresentou suas ideias e recitou diversos de seus poemas ao extenso – e ávido – público. “Briga de beco” e “Com Licença Poética” foram alguns dos poemas pedidos, aos gritos, pela plateia que foi prontamente atendida.

Nossa vontade de Adélia Prado tem razão. A mineira de Divinópolis, mãe de cinco filhos, que comemora 80 anos, sendo 40 de vida literária , deixou a multidão do teatro atenta enquanto falava sobre redescobrir a simbologia para uma vida com sentido. Citando alguns filósofos e escritores conhecidos, mas, preponderantemente apoiada em sua experiência de vida, Adélia abordou o vazio inerente ao ser humano e suas buscas por respostas nas artes, na religião e na Filosofia.  Na mesma noite, Adélia lançou seu livro Poesia Reunida (ed. Record) que vem em tamanho bíblia e contempla todos os seus poemas.

Romanelli / Infinito Fotografia

Um dos melhores momentos dos quase 90 minutos em que Adélia se apresentou, foi quando narrou um caso ocorrido muitos anos atrás, quando participou de um programa da TV Itacolomi, e recitou um conhecido poema de sua autoria.

Casamento

 

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como “este foi difícil”

“prateou no ar dando rabanadas”

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

Quando retornou à sua cidade, ela conta, foi abordada por uma mulher que trabalhava como doméstica que disse ter adorado a receita de peixe que ela ensinou na televisão. Gracejos à parte, Adélia nos mostrou como a mensagem do poema foi atingida: dar significado ao que há de mais ordinário, como limpar um peixe. Talvez tenha sido a única vez que aquela mulher tenha percebido que sua vida é digna da poesia. A arte é capaz de promover essa sacralidade que cada um deve conferir à própria existência.

Sua mensagem na noite do dia 17 foi coerente com sua obra, marcada pela reflexão sobre a mística cristã, o amor, o ser mulher e o cotidiano. Ao final, fomos surpreendidos por uma Adélia que se emocionou ao ler o poema dedicado à mãe e ao terminar a noite com o pedido de que o público fizesse uma oração pelo país. Gentil, ainda pediu desculpas por não fazer sessão de autógrafos  – e de selfies; afirmou que o mais importante era a conexão estabelecida entre ela e o público durante a fala.

Fique tranquila, Adélia, ninguém achou ruim. Sua poesia cumpriu em nós o mesmo favor que fez à jovem que a ouviu falar na televisão sobre afazeres domésticos. A senhora nos tirou do piloto automático e nos ajudou a ressignificar a nossa existência por meio da sua arte. Sorte de quem foi salvo pelas suas palavras.

Romanelli / Infinito Fotografia
Romanelli / Infinito Fotografia

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Fotos: Jackson Romanelli / Infinito Fotografia

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