A autora que não quer fama

Desde quando comecei a publicar, ouço experts em imagem dizer que a figura de escritor recluso não é mais compatível com o nosso tempo. Numa época em que alguns autores alcançam o status de celebridade, e que se torna famoso quem possui números estrelares de seguidores nas redes sociais, dizem que publicar um livro e não “colocar a cara no sol”, é enterrar o próprio trabalho. As recentes publicações de blogueiros e youtubers por editoras que eram conhecidas por seu rigor literário, confirmam isso. Todos querem números.

Mas há quem vá na contramão. De uns meses para cá, no Brasil, cresce o burburinho ao redor de Elena Ferrante, pseudônimo de uma autora italiana que se recusa a tirar fotos e ir a eventos, mesmo sabendo que seus livros estão ganhando o mundo. Ninguém sabe quem ela é. De acordo com a autora, os livros, depois que publicados, não precisam mais de seus autores: se eles têm algo a dizer, logo encontrarão seus leitores. A crença que parece contrariar qualquer plano de marketing deu certo. Por meio de sua escrita, os livros de Elena ganham autores em diversos países. Seus títulos possuem boa vendagem e já foram indicados a prêmios como o Strega, o principal literário da Itália.

O livro A Amiga Genial, primeiro de tetralogia fala sobre a infância e adolescência de duas amigas, narrada por uma delas, já na velhice, foi publicado pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros – onde também publico, mas pelo jovem selo Globo Alt. Quando iniciei a leitura do primeiro volume, custei a largar. A escrita é franca, crua e, mesmo tendo bons recursos narrativos, é direta. O contexto apresentado é, por vez ou outra, um pouco assustador e triste, em função das lembranças de uma adolescência rude numa Itália pós-guerra. Em alguns momentos, o livro me lembrou O Caçador de Pipas, best seller do Khaled Hosseini, devido o constante clima de perigo. Contudo, o material humano ali exposto vale a pena: dramas, maldades, descobertas, inveja, admiração e sonhos.

Enquanto aguardo o segundo volume da série, comporto-me como uma boa leitora que adora saber mais sobre o autor da obra. No último domingo, o jornal italiano Corriere della Sera publicou uma reportagem com a hipótese de que Elena seria uma professora de Nápoles chamada Marcella Marmo. A editora romana Edizioni E/O, que publica as obras na Itália, e a própria professora, desmentiram a matéria.

Bem, resta-me esperar os livros no Brasil e, quem sabe, que Elena queira autografar os exemplares de seus leitores. Um dia.

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