O sexo e a literatura juvenil

Uma reportagem do jornal O Globo motivou muita conversa no cenário literário nos últimos dias. A matéria assinada por André Miranda retrata a polêmica acerca das cenas de sexo nos livros juvenis. Recentemente, o escritor John Green também deu tuitadas ironizando o fato de um de seus livros terem sido banidos de uma escola.

Sexo gera burburinhos (interpretação livre!). E não é de hoje a preocupação de pais e de educadores sobre o conteúdo sexual que os adolescentes têm acesso. Como escritora que também fala para o público teen e como mulher adulta que passou pela adolescência, sei que o interesse pelo tema é inato. Ouvindo funk ou não, lendo 50 Tons de Cinza ou não, trocando vídeos no WhatsApp ou não, a sementinha eufórica da curiosidade está lá. Não por acaso todos nós viemos de um ato sexual.

Não vai adiantar abrir guerra aos livros modernos. Clássicos da literatura brasileira e internacional narram desejos – consumados ou imaginados. Como as capas desses são tradicionalíssimas, meus pais não censuraram, e eu os pegava na biblioteca da escola com facilidade – e com um um olhar de admiração da Marilza, a senhora que anotava os empréstimos nas fichinhas. Geralmente, os clássicos só são lidos quando obrigatórios.

Li coisas que adorei e outras que me assustaram, assim como é na vida real, não? O que mais levo dessa época, é que essas leituras foram fundamentais para desenvolver meu próprio senso crítico. Criei minha percepção e meu limiar de impropriedade sem que nenhum adulto me impusesse nada. Lia e pensava sobre o que eu lia. Assim, eu descobri por conta própria que não queria ficar grávida na adolescência. Todos aprendemos a importância dos preservativos, mas só as histórias têm o poder de erotizá-las. Não é melhor aprender que se proteger pode fazer parte do processo de estimulação do que pensar que você tem que parar o contato para colocar algo num objeto fálico?

Também com as personagens que conheci, descobri que não queria que minha primeira vez no sexo fosse como de uma outra ingênua e carente, que escolheu mal o parceiro e acabou na pior. E ainda resolvi que não seria nada parecida com aquela personagem rígida e controladora, que envelheceu fugindo da vida (pode ler sexo aqui também). As vivências e conflitos de diversas protagonistas me ajudaram a elaborar os meus desejos; deu nome aos sentimentos que eu tinha, mas não sabia identificar.

Obviamente não tenho o direito de dizer o que o filho dos outros podem ler ou não. Mas posso dizer que as leituras que acumulo desde a adolescência me ajudaram a ser uma adulta mais consciente de quem sou, e do meio que estou inserida.

Acho extremamente válido os pais e a comunidade escolar se envolverem na vida dos adolescentes. Munir os jovens de bom conteúdo é fundamental para que eles conheçam o sexo de forma saudável, sem superestimar ou banalizar o ato. Censurar a leitura jovem só vai contribuir para que os livros sejam objetos distantes da realidade deles, santificados em prateleiras pouco visitadas.

Em tempo: se alguma cena te incomoda muito, está na hora de você falar mais sobre ela.

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A imagem usada é da arte da matéria de O Globo citada no texto.

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