Meu cachorro Rock’n’Roll

Dizem que os gatos que têm sete vidas. E os cachorros, quantas têm? O meu já gastou umas quatro em três anos de vida.

Há algum tempo, chegou aqui em casa um labrador branco e amarelo que cabia na minha mão. Não conseguia subir degrau algum sem ajuda e não entendia que a ração era para comer. Eu queria um cachorrão forte, com nome de lutador. Sugeri Rocky Balboa e meus irmãos aprovaram.

Os dias se passaram e aquela bolinha de pelo e de fofura ia explorando a casa, crescendo, entrando em lugares improváveis, destruindo plantas, sapatos, roupas no varal, rolos de papel higiênico, pastas de dente e tudo mais o que via no chão e conseguia alcançar. E a ração, claro, era detonada em segundos. Não importava o quanto ele comesse; sempre havia espaço para mais. Até para um tubo de tinta azul que estávamos usando numa parede daqui de casa. O bichinho de dois meses bebeu (e comeu) parte do tubo e da tinta. Só víamos pegadas azuis pela cozinha. Foi um desespero para limpar o chão, os armários e o cachorro. Fiquei com medo de o cachorro morrer, mas o máximo que aconteceu foi ele evacuar bolinhas azuis. O suficiente para ele deduzir que poderia continuar a experimentar novos sabores químicos, como o da graxa, do silicone, do desodorante, do sabão e dos cosméticos.

Bebendo tinta!

Certo dia, vi o cachorro no quintal, pelo vidro da porta da cozinha. “Será que o vidro está embaçado?”, pensei. Aproximei e dei de cara com uma cabeça gigante feito a do fofão num corpo de um labrador de cinco meses. O Rocky estava tão inchado que passava a patinha nos olhos para tentar abri-los. Ó, dó… Tivemos que carregá-lo até o carro e levá-lo ao veterinário. O danado foi xeretar uma abelha no quintal e levou uma ferroada na testa, perto do olho. Depois de uma reação anafilática daquelas, descobrirmos que ele é alérgico. Foi assim também com a picada de aranha que ele levou no queixo. Foram vários retornos ao veterinário para tratar a ferida.

O pior dos dias de dona de labrador foi quando ele foi atropelado, aos sete meses de idade. Num segundo de distração, o bicho se desfez da coleira e atravessou a rua de uma vez. Pimba. Um carro arremessou (sem mentira!) o meu Rockynho. Foi terrível. Tiveram que juntar três homens para levantar o carro e tirá-lo debaixo da roda. (O automóvel ficou sem o peito de aço.) Deus sabe a força que fiz para manter a calma ao vê-lo com o maxilar quebrado, com o dentinho tipo de javali, para fora, sabem? Após uma pancada como aquela, o resultado foi “apenas” uma reconstrução óssea no queixo, com direito a três pinos. Ele iria voltar para a avaliação em dez dias. Mas no terceiro, enquanto tiramos o abajur (aquele protetor que colocamos no pescoço dos cachorros para ele não mexer na ferida) para ele comer… O cachorro entra em casa aos pulos de alegria com os pinos na boca. Não sabemos como, mas ele os arrancou. Só restou ao veterinário dizer “ele está ótimo”.

De lá para cá, continuamos com as mangueiras furadas, chinelos sem pedaço, pães e frutas roubados, um ovo de Páscoa trufado que você compra para o namorado comido com papel alumínio e tudo… A gente xinga, coloca de castigo, mas aquela carinha linda amolece o coração de qualquer um.

Curtindo a grama.

Esta semana, acordei bem cedo com os urros do meu cachorro. Ele estava na grama, espumando, sem força nas patinhas, se contraindo e vomitando muito. Às pressas, fomos ao veterinário (sou freguesa, né?). Como ele havia chegado da caminhada, decerto, comeu bobagem na rua, como sempre. O que não esperávamos era que houvesse chumbinho no que ele ingeriu. (Que, aliás, é ilegal. Se tiver ratos ou outras pestes na casa, faça uma dedetização profissional. Se eu pegar quem fez isso, o cara vai ver o que é veneno com uma porrada minha!). Mesmo depois de três anos de puro rock’n’roll (“Rocky” ao vivo!), aquela manhã foi terrível. Vi meu amigão sofrer e correr risco de morte. Ele ficou internado por dois dias. Entrar em casa e não vê-lo me receber era como estar numa casa que não era minha. Era como se faltasse um pedaço. Quando fomos visitá-lo, no mesmo dia do envenenamento, meu Rocky estava de volta como se nada tivesse acontecido. Agora ele está em casa, louco por comida, trazendo a bolinha para a gente jogar e pulando na minha cama. Não paro de agradecer a Deus pelo organismo dele ter aceitado tão bem o tratamento, muito bem executado pelos veterinários.

Visitando meu gordo onde ele estava internado.

Estou quase mudando o nome dele de Rocky para Highlander. O próximo roteiro de “Duro de matar” pode ser inspirado nele. Esse rock da pesada nos levou muita grana. Punk rock. E muitas lágrimas. Rock melody. Mas basta um leve balançar de rabinho para deixar meu coração feito uma bateria de banda de hard rock. As demonstrações de carinho, a companhia e aquele achego sobre meu pé quando estou trabalhando, estão mais grudados na minha cabeça do que o riff de guitarra de Sweet Child O´Mine, do Guns. Nossas brincadeiras alcançam mais tons na escala musical do que qualquer cantor de rock heavy metal.

Ele não fala português, mas me entende como se estivesse na minha cabeça. Respeita minha tristeza, lambe minhas lágrimas, pula comigo, me acorda com as patadas nas portas e pulando na minha cama. Demonstra saudade ficando no meu quarto e fazendo xixi no box do meu banheiro quando viajo. Reage com empolgação e começa a farejar meu cheiro quando perguntam “cadê a Laura?”.

Amo meu cachorro como amo meus irmãos. Desse jeito estabanado, quebrado, intoxicado, atropelado, envenenado… Esse rock pesado. Sobre as vidas do cachorro… Não sei com quantas o meu veio. Mas é certo: ele está com um pouquinho da minha.

Não larga o osso!

P.S.: Adivinhem que estava meu lado enquanto eu escrevia o post?

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